Duas leituras de Mendoza Argentina
El Enemigo: dois amigos, uma inquietação e os solos de Gualtallary
Alejandro Vigil e Adrianna Catena aproximaram ciência e história em um projeto que faz Malbec e Cabernet Franc dividirem a mesma conversa.


Explorar esta história
El Enemigo tem um nome que parece anunciar uma disputa. A rivalidade proposta pela marca, porém, é interior: enfrentar as próprias limitações. Essa ideia ajuda a compreender o encontro entre Alejandro Vigil, ligado à pesquisa agrícola, e Adrianna Catena, historiadora. Antes de virar uma pergunta sobre qual garrafa levar, El Enemigo é uma história sobre o que duas pessoas decidem fazer com repertórios diferentes.
Na taça, a parceria ganha uma expressão particularmente interessante: um Malbec que acolhe Cabernet Franc e um Cabernet Franc que recebe Malbec. Cada variedade tem sua vez de conduzir o vinho. Acompanhar essa troca permite olhar para Mendoza além de sua uva mais conhecida.
Valle de Uco, Mendoza, ArgentinaUm pesquisador de solos encontra uma historiadora
Vigil passou pela pesquisa de solos do INTA, o instituto agropecuário argentino. Adrianna estudou história em Oxford. Na biografia que o projeto publica, os dois aparecem unidos pelo interesse em vinho, mas com instrumentos bastante distintos para entendê-lo: ele observa a matéria do vinhedo; ela traz o hábito de investigar pessoas, contextos e tempo.
É tentador contar um vinho apenas pelo sobrenome famoso no rótulo. Aqui, isso deixaria de fora a parte mais interessante. Uma parceria criativa pode reunir pessoas próximas do mesmo universo e, ainda assim, abrir um espaço próprio de trabalho. El Enemigo permite acompanhar essa autonomia: conhecer a trajetória dos fundadores é o começo da história, enquanto a identidade de cada vinho se constrói em escolhas concretas.
Referências: El Enemigo — equipe, vinhos e fichas de safra (abre em nova aba)
Adrianna Catena · El EnemigoDante está na casa, a inquietação está no nome
Em Chachingo, na região de Maipú, Casa Vigil aproxima hospitalidade e literatura. A arquitetura inspirada na Divina Comédia é descrita pela reportagem do jornal Los Andes. Inferno, passagem e transformação formam, assim, um contexto cultural para quem se aproxima do universo de Vigil.
A referência tem mais interesse quando permanece aberta. Um livro pode dar forma a uma casa, uma ideia pode dar nome a um projeto, mas nenhum dos dois substitui a uva. Para o leitor, essa camada acrescenta uma pergunta: quanto da personalidade de quem faz vinho chega ao produto? A resposta está menos em decifrar símbolos do que em observar o que o produtor preserva, modifica ou decide experimentar.
Referências: Los Andes — Casa Vigil e a arquitetura inspirada em Dante (abre em nova aba)
O caminho sobe até Gualtallary
As fichas oficiais de El Enemigo Malbec e Cabernet Franc 2023 situam as uvas em Gualtallary, Tupungato, a 1.470 metros. Ambas descrevem solos profundos, calcários e pedregosos. Essa localização se refere aos vinhos daquela safra; ajuda a conhecer a origem trabalhada pelo projeto, sem substituir a identificação da garrafa escolhida.
Altitude, exposição e solo fazem parte das condições com as quais a videira convive. O solo interfere, por exemplo, na água disponível para as raízes; o clima participa do ritmo de maturação. Ainda há manejo, data de colheita e decisões de adega entre a paisagem e a taça. Por isso, calcário não deve virar promessa de um sabor específico, nem metros acima do mar funcionar como escala de qualidade. O lugar importa justamente porque exige interpretação.
Referências: El Enemigo — equipe, vinhos e fichas de safra (abre em nova aba)
Alejandro Vigil · El EnemigoQuando as uvas trocam de papel
Nas duas fichas de 2023, a variedade principal representa 90% e a companheira, 10%. Malbec e Cabernet Franc alternam essas posições. O catálogo El Vinos também apresenta a dupla como cortes, com uma variedade protagonista em cada rótulo. O nome em destaque, portanto, não significa necessariamente pureza varietal.
Há uma boa experiência de leitura sensorial nessa inversão. Quem chega pelo Malbec encontra um ponto de referência conhecido e pode prestar atenção ao que a outra variedade acrescenta ao conjunto. Quem segue para o Cabernet Franc muda o centro da conversa. Em vez de tentar isolar um ingrediente com precisão de laboratório, vale acompanhar fruta, notas herbais, textura e persistência como partes de um mesmo vinho.
Referências: El Enemigo — equipe, vinhos e fichas de safra (abre em nova aba)
Uma mesa para continuar a história
Se a curiosidade pede os dois, uma refeição simples deixa a comparação respirar. Nossa proposta é um assado com ervas e cogumelos, servido sem molho adocicado. A carne, ou um ragu de lentilhas bem dourado, oferece textura; as ervas criam outra aproximação possível. Não é necessário montar pratos separados nem transformar o jantar numa prova.
O Malbec pode ser a primeira parada de quem já gosta dos tintos argentinos. O Cabernet Franc abre outra direção para quem sente curiosidade por um perfil herbal e especiado, como descreve o catálogo. Sirva pequenas porções, inicialmente na faixa de 16–18 °C indicada pela El Vinos, e observe o que a comida muda. Uma preferência que aparece com o primeiro gole pode se inverter depois de algumas garfadas. Essa descoberta pessoal combina bem com um projeto que começa por questionar certezas.
A história pode continuar à sua mesa: conheça El Enemigo Malbec e Cabernet Franc na El Vinos e escolha a garrafa que desperta sua curiosidade.
Da leitura à primeira taça
Vinhos desta história
Explore os rótulos na El Vinos e escolha o vinho para o seu próximo encontro à mesa.
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Perguntas frequentes
El Enemigo e Gran Enemigo são a mesma linha?
São linhas distintas. Este artigo trata de El Enemigo Malbec e Cabernet Franc; fichas e avaliações de Gran Enemigo pertencem a outros vinhos.
O que Dante tem a ver com El Enemigo?
A Divina Comédia inspira a arquitetura de Casa Vigil, em Chachingo. A referência pertence ao universo cultural do projeto, não a uma característica técnica do vinho.
As proporções do corte são sempre iguais?
A documentação citada informa 90% e 10% para 2023. A composição exata deve acompanhar a safra, inclusive quando a garrafa escolhida é de outro ano.
Fontes e referências
Consulte as fontes utilizadas para os dados históricos e técnicos desta matéria.



